terça-feira, 28 de julho de 2015

A FESTA DA LAPA (Serie 70, 97º)

A FESTA DA LAPA

Francisco de Assis Correia


       Estamos na novena da festa do Bom Jesus da Lapa, em Jardinópolis- SP.
    Segundo a tradição oral a festa teria surgido, em 1913, mas até o presente, não se descobriu nenhum documento histórico que certifique  sua origem.
Sabe-se que, a fundadora foi a Pequena do Nascimento, cujo nome verdadeiro era Juventina Pereira do Nascimento.
    Nasceu em Condeúba – BA (mesmo local para onde vão anualmente os voluntários do sertão” dirigidos  por  “Dorinho”) aos 15 de maio de 1885.
    Ha entretanto, duvidas quanto a data de seu aniversario de nascimento e do ano de seu nascimento.
      O certo é que ela iniciou a festa em sua casa, em Jardinópolis, no local, onde hoje, esta instalada o lar S. Vicente de Paulo (Rua Prof. Euclydes Berardo, nº 67) no então Largo da Santa Cruz.
     Depois, por implicação dos vizinhos, transferiu-se para o local, onde hoje se encontra a imagem do Sagrado Coração de Jesus, ao lado da então curva da morte.
     Por fim, estalou-se, em capela, em local próprio, onde hoje se encontra o santuário do Senhor Bom Jesus da Lapa.
     A festa, teve oposição da Igreja, primeiro por que era uma festa particular e não oficial da paróquia local. Depois, por que os recursos da mesma, ficavam com sua proprietária.
      O Bispo Diocesano de Ribeirão Preto na época,  Dom Alberto José Gonçalves, chegou até mesmo a ameaçar de excomunhão quem frequentasse a festa da lapa.
      O vigário que mais se opôs à festa, fazendo uma concorrente na mesma data, na praça da matriz, Pe. Jayme Noguera, sempre obedecendo às normas da Diocese, e se opondo à Pequena do Nascimento, viu-se frustrado e “traído” pelo próprio vigário geral da Diocese, Monsenhor Dr. João Laureano. Este, muito amigo do mais influente líder politico da região na época: Dr. Mário Guimarães de Barros Lins. Com o auxilio deste, conseguiu fazer o acordo com a Pequena do Nascimento e com o mesmo, liberou a festa de toda a interdição do Bispo e a mesma, passou a ser liderada pelo vigário local, até o presente momento
       Padre Jayme Noguera, percebeu nitidamente como funcionaram as coisas sem sua participação e anuência. Para todos os efeitos, ele teria pedido ao seu amigo e colega Pe. José Vingelli, que estava em Santa Cruz das Palmeiras, para trocar com ele a paróquia de Jardinópolis e, assim, foi feito.
        No II Livro de Tombo da Paróquia de Santa Cruz das Palmeiras (1904-1957), Pe. Jayme registra o motivo pela qual deixou a Paróquia de Jardinópolis. Ele, segundo eu entendi, ficou magoado com a politica que levou ao acordo sobre a Festa da Lapa, que não incluiu o Vigário. Dá a entender que foi uma manobra politica do Partido Republicano Paulista, tendo à frente Dr. Mário Lins[1]. Mas não registrou nada sobre seu retorno a Jardinópolis, segundo o qual ele teria presidido e celebrado a festa em 1935, com chegada solene na estação de trem, com discurso do Dr. Mário Lins, celebração de missa às 10h e procissão.[2]
         Quanto a Pequena do Nascimento, esta, faleceu em Jardinópolis no dia  17 de setembro de 1950
          Pe. Jayme Noguera, veio falecer em Mogi Guaçu no dia 13 de maio de 1941.
           





*Padre, 70 anos. Pároco emérito. Foi professor de filosofia e de teologia no CEARP. Econtra-se com deficiência visual completa, desde março de 2013. Digitou esse texto Ricardo Rodrigues de Oliveira, enfermeiro cuidador do autor. Serie 70 anos, 97°.





[1] II Livro de Tombo da Paróquia de Santa Cruz das Palmeiras, p. 126v-127v.
[2][2]  Pe. FRANCISCO DE ASSIS CORREIA. A PEQUENA DO NASCIMENTO E O BOM JESUS DA LAPA DE JARDINÓPOLIS (1913-1950). Brodowski. Ed. Grafcolor, 2005, p. 91-92.

quinta-feira, 23 de julho de 2015

AS QUALIDADES DE UM BISPO (Serie 70, 96°)

Escrevi, há alguns meses um texto sobre o episcopado brasileiro no qual sugeri que se alargassem os horizontes para a escolha de bispos. Encontrei, agora, um texto de um teólogo australiano, Paul A. McGavin, publicado pelo IHU (23/07/2015), mas que antes se constituiu numa carta aberta ao papa Francisco. Eis o Texto:

Doze critérios para a seleção dos bispos, de Paul A. McGavin
Se olharmos simplesmente para o modo como habitualmente são visualizadas as responsabilidades de um bispo, a primeira coisa que observamos é que se trata de um “ofício” que é muito exigente e diverso. O segundo ponto é que é difícil encontrar candidatos aptos para o cargo. O que significa que devemos, talvez, nos contentar com os que estão disponíveis, em vez de procurar quem corresponde ao que desejaríamos. Podemos nos consolar dizendo que “Deus nunca nos deixará desprovidos”, mas isto pode ser um falso consolo, porque muitos leitores poderiam se ver confrontados com uma experiência prolongada da providência divina, na ausência da providência episcopal.
Contrariamente à crença católica oficial, a ordenação não transforma um homem. Este que a recebe, tem acesso à autoridade e à graça do sacramento da Ordem. Mas a concretização dessas depende em grande medida das qualidades humanas que estão presentes naquele que é ordenado. Os critérios de seleção devem concentrar-se fundamentalmente nas qualidades humanas e sobre o modo como a graça pode se manifestar nas qualidades humanas.
É nesta perspectiva que são propostos os seguintes critérios de seleção:
1. É necessário escolher um homem viril, um homem que tenha confiança em si mesmo e esteja bem seguro de sua masculinidade; um homem que tenha um estilo de vida concreto no físico e que seja forte tanto do ponto de vista físico como mental. É preciso buscar o tipo de homem que os jovens e os homens admirem e que as mulheres respeitem. É preciso buscar um homem que seja capaz de atrair os jovens ao seu redor, encorajando-os a explorar e desenvolver uma vocação para o ministério sagrado, e que seja um homem que saiba estabelecer com os seus padres e diáconos relações de apoio mútuo, de confiança, de visão e de estímulo. Um homem que os leigos que estão dentro da Igreja e os homens que estão fora da Igreja vejam como alguém muito coerente.
2. A coerência é de suma importância. O bispo é um homem que, com prudência, diz em que ele acredita e coloca em prática o que ele diz? É um homem que se associa somente com aqueles que compartilham suas simpatias e antipatias, ou é um homem que se compromete com firmeza com pessoas que são diferentes dele? É um homem que segue a corrente ou alguém que vai na contra corrente? É um homem do qual se pode estar seguro de que agirá com total coerência? É um homem para quem os princípios contam mais que suas simpatias e antipatias?
3. Os princípios são de suma importância. O bispo é um homem que insistirá para que os processos sejam justos e que a justiça seja correta? É um homem que se esforçará para agir canonicamente, em vez de arbitrariamente? Um homem que tratará todo o mundo, homens e mulheres, da mesma maneira, quer sejam simpáticos ou não? É um homem que faz o que é justo diante de Deus, ou o tipo de homem que, quando o jogo fica difícil, faz o que pode para escapar?
4. O temor de Deus é de suma importância. São João nos ensina que “o amor perfeito expulsa o medo” (1 Jo 4,18). Há poucas pessoas que sejam perfeitas no amor; e um vivo temor de Deus nos impede de fazer o que o amor perfeito não faria e nos impulsiona a fazer o que o amor perfeito faria. Um homem não é ordenado bispo para si mesmo, mas para Deus e para a sua Igreja. A autoridade e a graça, ou as Ordens sagradas, são tão grandes que, para ser digno, seu destinatário deve se deixar intimidar pela confiança, pelo compromisso de que é objeto. Ele é responsável diante de Deus pela transmissão da herança da Igreja, o Evangelho de Jesus Cristo. É responsável perante Deus por sua capacidade de supervisionar e colaborar com seu clero. É responsável perante Deus pelo exercício de sua paternidade no meio do povo de Deus que é confiado à sua guarda. Discernir o justo temor em um homem é de fundamental importância, porque só o homem que teme a Deus será um instrumento da ação de Deus em sua Igreja.
5. A inclusividade é de suma importância. Como padre e pastor, o bispo trabalhou para edificar uma comunidade na qual as pessoas mais diversas encontram espaço e acolhida? Ou como padre educador ocupou-se dos alunos mais cheios de promessa, mas também dos menos cheios de promessa? Demonstrou ser um homem de aguda capacidade de escuta, de tal forma que sente profundamente o que se diz a ele? É o tipo de homem de quem as pessoas dizem: “Ele realmente me escutou, sinto que ele realmente me entende?” Ou é o tipo de homem que age em função de suas próprias ideias pré-concebidas, o tipo de homem que tem uma epistemologia restrita, o tipo de homem que vê as coisas de forma parcial, preto no branco?
6. A oração é de suma importância. Naturalmente, um bispo está ligado à celebração regular da santa Eucaristia e da recitação do ofício divino. Mas o que é ainda mais importante é o escutar, na medida em que a oração não é uma “performance”, mas escuta, escuta de Deus: “O que queres que eu faça?”; “Meu Deus, o que tu farias nestas circunstâncias?”; “Aqueles que eu escuto, o que me revelam, meu Deus, do que tu dizes e fazes e queres que eu diga e faça?”; “Por favor, Deus, silencia meus falatórios, e ajuda-me de forma mais clara a perceber a ação da tua mão em tudo o que está diante de mim!” É de fundamental importância discernir se nos encontramos diante de um homem que pratica a presença de Deus ou pratica a presença de sua própria presença.
7. A humildade é de suma importância. Com frequência, as pessoas interpretam mal a humildade e discernem-na erroneamente. A verdadeira humildade é fundamentalmente objetividade: quem sou eu diante de Deus? Quem sou eu em relação com os outros, homens, mulheres e crianças? Quais são os dons que eu tenho, e quais são os meus limites? Onde e como devo inclinar-me para os outros? Onde e como devo seguir os conselhos dos outros? A humildade é robusta, não é afeminada. Na seleção episcopal, o discernimento da humildade é fundamental; caso contrário, a Igreja terá como bispo um homem que é autoritário e que abusa de sua posição, sente-se ameaçado pelos outros, rebaixa os outros e acredita que é o que não é.
8. O amor da beleza é de suma importância. As pessoas podem estremecer diante do pensamento de um bispo esteta, mas quando um bispo dá mostras de gostos pouco refinados, a Igreja sofre consideravelmente. O dano que foi causado à vida católica por uma liturgia minimalista foi muito grande, e a diminuição do justo culto de Deus, em razão de liturgias minimalistas, insípidas e centradas na pessoa, é dolorosa. Os estragos causados por uma música horrível e por artes visuais e plásticas insípidas foram enormes. As vestimentas e as túnicas sacerdotais degradam muitas vezes a dignidade do cargo. Todos estes argumentos devem ser julgados no contexto cultural. Escrevo a partir da Austrália, onde experimentamos verões muito calorosos, minha roupa de verão pode ser uma camiseta branca com calças curtas de cor escura e calçados pretos bem lustrados: um “look” que está bem longe das roupas surradas e das cores extravagantes que com frequência se veem nos padres. Das coisas grandes às coisas pequenas, dos aspectos de uma cerimônia elevada às questões banais, um adequado sentido de discernimento estético é importante. As pessoas têm necessidade de serem edificadas em todos os campos: da roupa cotidiana e do cuidado do aspecto à apresentação formal sem nunca ser asfixiante; da liturgia diária à liturgia mais solene; do canto gregoriano ao estimulante esplendor musical. É muito importante que um bispo seja um homem que compreende a beleza, ama a beleza e comunica a beleza de Deus, desde as coisas simples e humildes até as coisas excelsas.
9. O exercício intelectual é de suma importância. Temos um caso interessante com o nosso atual Papa, que em sentido estrito não é um intelectual, mas que tem uma mente teológica aberta à pesquisa, e desafia poderosamente a Igreja nas áreas em que imperava um pensamento convencional em vez de uma busca atenta e da defesa da fé. Além disso, vivemos em um mundo complexo e multiforme que no encontro requer uma compreensão profunda e um pensamento rigoroso. Minha preferência é para candidatos episcopais que tenham obtido boas licenciaturas em universidades públicas qualificadas, ou dispõem de qualificações profissionais sólidas. Com muita frequência, atualmente, os bispos falam sentenciosamente sobre questões que não compreendem e nas quais os leigos seriam mais competentes, ou reproduzem opiniões vindas de burocratas eclesiásticos que não deveriam ter triunfado no mundo. Evidentemente, uma sólida formação em Teologia, Filosofia e Direito Canônico é fundamental. Mas, muitas vezes, os estudos eclesiásticos superiores produzem apenas o que eu chamo de “mentalidade de nota de rodapé”, e não nutrem as mentes com capacidades críticas e analíticas. Um candidato ao episcopado deve ser um homem que demonstra capacidade de enxergar além de todas as obsessões do mundo e da Igreja; um homem que saiba destrinchar as crises e seja capaz de valorizar e elaborar, de maneira crítica, planos para realizar melhorias e conservar a herança apostólica. Não é que cada bispo deva ser um grande intelectual, entendendo que um corpo episcopal sem grandes intelectuais será absolutamente fraco. Mas, todo candidato ao episcopado deve ter uma mente forte e rigorosa e a capacidade de colocar em prática o que tem na cabeça.
10. A capacidade de aplicação prática é de importância crucial. O “ofício” de um bispo é mais do que o homem pode fazer sozinho, o que significa que um bispo deve ser ajudado em sua tarefa. Esta ajuda vem, em primeiro, lugar dos seus colaboradores mais próximos, seus padres e diáconos. Na maioria dos casos, atualmente, há burocracias eclesiásticas diocesanas que, em sua maioria, são pletóricas e mais civis do que eclesiásticas. Um candidato ao episcopado deve demonstrar competência na gestão dessas burocracias, mais que permitir a essas burocracias que administrem por ele, como acontece com frequência. A administração da Igreja deve ser eclesial em seu funcionamento, e isto deve ir de alto a baixo. Nenhum bispo deve se contentar em ser um CEO, mas – na medida em que agir como administrador delegado – deveria manifestar uma capacidade de colaboração, de “trabalhar com” mais do que “trabalhar acima de” os diversos organismos eclesiásticos. Não apenas a cúria diocesana, mas também a coordenação diocesana de educação, os serviços diocesanos encarregados da saúde e do bem-estar, em síntese, toda a gama de serviços diocesanos devem ser renovados constantemente, de tal forma que funcionem de forma verdadeiramente eclesial e evangélica. Caso não mostrar capacidade de mobilizar os demais para que atuem de forma colaborativa, caso não se fizer acompanhar pelos que estão comprometidos nestas missões, não será eficaz como bispo.
11. Decidir o que não fazer é de crucial importância. Existe um tipo de homem que pensa que pode fazer tudo e administrar tudo e, pelo contrário, acaba não fazendo nada. Há um tipo de homem que trabalha incansavelmente e que realiza pouco, é ineficiente e ineficaz, porque não sabe distinguir entre o que pode fazer e o que não pode fazer. Existe o homem que não faz nenhum exercício físico regular, nenhuma recreação regular, nenhuma atividade cultural regular, nenhuma leitura edificante regular: o tipo de homem que é somente um aborrecido burro de carga. Esses homens, quando se tornam bispos, não cultivam os jovens para o ministério sagrado, não encorajam ou não desenvolvem ou não utilizam corretamente o seu clero. Simplesmente, não encontram o tempo para se comportar como pais em Deus com seus padres. Para esses homens é melhor não ser bispo.
12. “Sejam imitadores, como eu o sou de Cristo” (1 Cor 11,1). Estas fortes palavras são do apóstolo São Paulo. Ao longo das décadas, são palavras que não pude aplicar com facilidade a algum bispo que conheci em diferentes graus. Com muita frequência, encontram-se homens que fazem o que gostam de fazer, e que favorecem apenas àqueles que são úteis para fazer as “suas coisas”. Uma profunda e arraigada semelhança com Cristo é difícil de encontrar, e é difícil encontrá-la mesmo entre homens que também seriam guerreiros de Cristo. Raramente encontram-se entre aqueles que são socialmente “exitosos”, que são apreciados porque são “inofensivos”. As cartas paulinas apresentam um homem que em muitos aspectos foi uma personalidade áspera, mas com tal semelhança com Cristo que não se pode não amar uma pessoa assim. Nós temos uma desesperada necessidade de bispos que manifestem tal semelhança com Cristo que induzam a amá-los e amá-los apesar das pontas ásperas que poderíamos ver em um ou em outro. Nós temos necessidade de homens que possamos imitar, porque seu modo de pensar, rezar e agir nos fazem ver o Cristo que pensa, reza, age e ama no meio de nós. Nós temos necessidade de homens com um profundo amor.

Tudo isso é difícil de discernir. Mas são estes discernimentos que são necessários no processo de seleção dos candidatos ao episcopado.”

Digitou esse texto Vinicius Maniezo Garcia, enfermeiro cuidador do autor.

sábado, 18 de julho de 2015

A TEOLOGIA COMPROMETIDA DE ARTURO PAOLI (Serie 70, 95°)


Uma das características de Arturo Paoli é a de apresentar-nos, não só uma espiritualidade encarnada, mas uma teologia (reflexão sobre a fé e a prática) comprometida, nascida em primeiro lugar de sua experiência pessoal com Jesus e com os pobres, para estar junto deles e com eles buscar a libertação.
            Experiência, aqui, deve ser entendida no sentido dado por Leonardo Boff: saber, com sabor (ência) a partir de dentro do mais profundo da pessoa (ex) sobre alguma coisa (peri).
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            Em Arturo Paoli esta experiência foi amadurecendo progressivamente: primeiro no encontro com um irmãozinho de jesus moribundo, no navio que o levou à Argentina e que resultou na sua vocação para segui-lo; depois, a sua dura experiência, por 13 meses no deserto argelino, sem poder ler nem escrever; isto lhe possibilitou a conversão profunda de si mesmo e à decisão (corte a respeito de algo, renúncia) de vazio, preencher-se de Jesus Cristo e dos pobres; vieram depois os trabalhos na Sardenha, na Argentina, na Venezuela e no Brasil.
            Seus livros transmitem-nos uma reflexão sobre a fé, muito perto da vida e engajada na prática.
            Certa vez ele confidenciou que: “o que falta hoje não são as iniciativas, mas são experiências, isto é, dizer: você está errando de posição, está errando de método. É uma falta de método...” (IHU, 15/07/2015).
            O cardeal Piovanelli expressou sinteticamente a figura de Arturo Paoli, nestes termos:

            “Sempre ficamos impressionados com as suas palavras, com os seus livros, mas sobretudo admiramos a coragem de uma vida comprometida para estar ao lado dos mais fracos” (IHU, 04/11/2012).

Digitou este artigo Vinicius Maniezo Garcia Enfermeiro e Cuidador do Autor.

A PRESENÇA DE ARTURO PAOLI NA ARGENTINA, NA VENEZUELA E NO BRASIL (Seria 70, 94°)


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            Arturo Paoli chegou a Argentina enviado pela Comunidade Irmãozinhos de Jesus. Foi trabalhar junto aos pobres em “Fortín Olmos, entre os madeireiros – hacheros – que trabalhavam para a companhia inglesa de madeira. Este período seria um dos mais duros da experiência latino-americana. Quando a companhia decidiu abandonar a zona já empobrecida da preciosa madeira quebracho, Arturo organizou uma cooperativa para permitir que os madeireiros continuassem vivendo no lugar” (ASSOCIAÇÃO OREUNDICI, 04/12/2012). “O contato com a realidade sofrida dos pobres terminou por provocar nele uma verdadeira conversão. Paoli, antes um nostálgico da sua Itália, assume para valer a causa dos oprimidos e com ela se identifica plenamente” (ADITAL, 06/12/2012).
“Em 1969, foi escolhido como superior regional da comunidade latino-americana dos Pequenos Irmãos, transferindo-se para perto de Buenos Aires. Aí viviam os noviços da Fraternidade, e começou-se a delinear uma teologia comprometida, prelúdio da adesão à teologia da libertação. Nesse período, publicou o seu segundo livro, Dialogo da Libertação. Em 1971, nasceu um novo noviciado em Suriyaco, na diocese de La Rioja, uma zona semidesértica, muito pobre, para onde Arturo se transferiu e encontrou um bispo ao qual seria ligado por uma forte amizade, Enrique Angelelli, a voz mais profética da Igreja argentina nos tremendos anos da ditadura militar: um prelado que devia morrer tragicamente em 1976 em um estranho acidente de carro que hoje ninguém duvida qualificar como assassinato e sobre o qual ninguém desenvolveria investigações, apesar do expresso pedido de Paulo VI” (ASSOCIAÇÃO OREUNDICI, 04/12/2012).
            “Com o retorno de Perón para a Argentina, o clima político se torna pesado, e Arturo é acusado de exercer um tráfico de armas com o Chile. Naquele momento, o Chile era governado por Allende, destituído no apocalíptico dia 11 de setembro de 1973 pelo golpe de Estado de Pinochet. Em 1974, apareceu nos muros de Santiago um manifesto com uma lista de pessoas a serem eliminadas por “qualquer um que as encontrar”: o nome de Arturo está no segundo lugar” (Idem).
            “Alguns Pequenos Irmãos são presos, e cinco deles figurariam entre os milhares de desaparecidos. Arturo, nesse momento, se encontra na Venezuela como responsável pela área latino-americana da Ordem: advertido por amigos para não voltar para a Argentina por estar sendo procurado. Volta para lá somente em 1985” (Ibdem).
Foi assim que, na Venezuela, “descobriu de modo definitivo o significado da sua humanidade: o amor, a responsabilidade e o cuidado se tornaram os principais elementos da sua identidade” (ADITAL, 06/12/2012).  
“Assim iniciou a experiência venezuelana, primeiro em Monte Carmelo, depois na periferia de Caracas, continuando, ou, melhor, intensificando, a sua produção livreira” (ASSOCIAÇÃO OREUNDICI, 04/12/2012).
            Chegou ao Brasil em meados de 1980 e “com o afrouxamento da ditadura militar, Arturo intensifica as suas missões, residindo a partir de 1983 em São Leopoldo-RS e entrando em contato com a realidade das prostitutas, inúmeras no seu bairro” (Idem).
            “Em 1987, transferiu-se, a pedido do bispo local, para Foz do Iguaçu-PR: lá foi morar no bairro de Boa Esperança, onde constituiu uma comunidade. Mas, lembra o frei Arturo, “a condição de extrema pobreza das pessoas do bairro me atormentava, e dessa angústia nasceu a ideia de criar a Associação Fraternidade e Aliança (AFA)”, uma entidade filantrópica, sem fins lucrativos, com projetos sociais voltados para o bem da comunidade” (Ibdem).
            “Seguiram-se 13 anos de duro e intenso trabalho para dar dignidade a essa população marginalizada. Hoje, a AFA é uma bela realidade, a qual se somou no ano 2000 a Fundação Charles de Foucauld, voltada especificamente para os jovens do proletariado e do subproletariado de Boa Esperança. Juntas, as duas entidades levam adiante inúmeros miniprojetos que envolvem diretamente mais de 2000 pessoas, entre adultos, adolescentes e crianças: ludoteca, ambulatório, atividades pós-escola (reagrupados no projeto chamado “Crianças desnutridas”), casa da mulher, cantina, coral, cursos de música, de informática, atividades esportivas... Projetos que visam à formação humana e que foram possíveis graças a ajuda de muitos, muitos amigos italianos que os financiam na sua quase totalidade” (Ibdem).
            “Desde 2004, Arturo, com o padre Mario De Maio, presidente da Oreundici, lançou o projeto “Madre Terra”: uma fazenda didática (da extensão de cerca de 40 hectares), também na periferia de Foz do Iguaçu, onde alguns jovens (provenientes das casas-família já acompanhadas e financiadas pela Oreundici), encontraram um porto de trabalho, uma “família ampliada”, o espaço e a possibilidade de crescer e se encontrar também com os muitos amigos italianos que seguem esse projeto e cuidam da amizade entre esses dois povos, sob o olhar admirável e paterno de Arturo” (Ibdem).

            “Hoje, o projeto “Madre Terra” permite aumentar essa amizade, com o vivificante e salutar contato com a beleza áspera e fascinante da natureza brasileira” (Idem).

Digitou este Artigo: Vinicius Maniezo Garcia enfermeiro e cuidador do Autor.

sexta-feira, 17 de julho de 2015

MORREU ARTURO PAOLI (30/11/1912 - 13/07/2015) (Serie 70, 93°)


http://www.fondazionebmlucca.it/public/112Arturo%
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Ele foi um dos grandes mestres espirituais dos tempos atuais!
Nasceu em Luca – Itália – no dia 30 de novembro de 1912, onde também ingressou no seminário diocesano em 1937.
Em 1943 tornou-se a principal referência de Luca da rede “Delasem” (Delegação para a Assistência dos Emigrantes Judeus) de Georgio Nissim, tendo salvado muitos judeus que escondera no prédio do seminário de Luca. Muito tempo depois, esse seu gesto fora reconhecido pelo governo italiano que lhe outorgou a medalha de ouro ao valor civil (2006). Já em 1999 o governo de Israel reconhecendo sua defesa de judeus, deu-lhe o título de “Justo entre as Nações”, prêmio que ele não fora receber.
Em 1949, mudou-se para Roma, como vice-assistente nacional da Juventude Católica. “As suas ideias, tão semelhantes às da esquerda, irritavam a cúpula da organização. Em 1954, foi mandado para o “exílio”, para servir como capelão entre os migrantes italianos em um navio destinado à Argentina. Uma medida punitiva, que, no entanto, tornou-se a sua salvação. Durante a viagem, Arturo assistiu a um religioso da Congregação dos Irmãozinhos no seu leito de morte. O padre fica surpreso e decide querer entrar na congregação fundada por Charles de Foucauld, que ordena caminhar com os pobres” (IHU, 15/07/2015).
Fez seu noviciado no deserto argelino por 13 meses, proibido pelo mestre dos noviços de ler e de escrever. “Depois do deserto, “morrera um Arturo e nascera outro”, contaria Paoli. Só como eremita é que ele consegue se livrar daquela que ele definiria como “a terrível doença que se chama o não sentido da vida”. “Passar pela experiência do nada é uma experiência que nos deixa alegres toda a vida: depois, não existem mais egoísmos nem cinismos”, explicaria” (Idem).
Sua primeira missão como Irmãozinho foi trabalhar junto aos mineiros na Sardenha, contratado para trabalhar na manutenção das estradas e, ao mesmo tempo, escrevia cartas para os habitantes, na sua maioria analfabeta, que eram enviadas à América. Seu trabalho, entretanto, foi visto com maus olhos pelas autoridades vaticanas, tendo sido, então, convidado a deixar seu país.
  Em 1960, segue para a Argentina, onde permanecerá até 1974 quando teve que deixar o país para não ser preso e executado pelo regime militar. Chegou à seguir a Venezuela e de lá veio ao Brasil onde permaneceu até sua volta à Itália em 2005.
Estabeleceu-se aos 93 anos na casa diocesana de San Martino in Vignale, nas colinas acima de Luca, dedicada ao Bem-aventurado Charles de Foucauld, onde faleceu.
Segundo Leonardo Boff, Arturo foi: “o homem  que sempre esperava o advento de Deus (IHU, 15/07/2015). Para Enzo Bianchi – monge e teólogo italiano, prior e fundador da Comunidade de Bose – Arturo foi “profeta cósmico” (IHU, 16/07/2015). A Pax Christi Itália definiu-o como aquele que nos ajuda “a entrar no mistério da Igreja dos pobres para “amortizar o mundo” com relações de paz, justiça e misericórdia (IHU, 15/07/2015).

O Papa Francisco e Arturo Paoli, encontraram-se na Casa de Santa Marta no dia 18 de janeiro de 2014. “O encontro foi rigorosamente privado, na forma das conversas ordenadas por Foucauld” (IHU, 15/07/2015).

Digitou este Artigo Vinicius Maniezo Garcia - Enfermeiro e Cuidador do autor.

quinta-feira, 16 de julho de 2015

A EMPREGADA E O TELEFONE (Serie 70, 92°)


Segundou Houaiss, o telefone é “aparelho destinado a transmitir e reproduzir à distancia o som, esp. o da fala humana, por meio de correntes eletromagnéticas”.
Para Murilo Mendes “o telefone é um objeto de metal, geralmente pintado de preto, geralmente redondo: uma boca sem corpo aderindo a uma e solicitando outa boca através do espaço”.
Sou da época em que o telefone permanecia fixado a uma parede, tinha uma manivela e sua campainha podia ser ouvida a distancia. Para a gente se comunicar com uma pessoa, era necessário recorrer ao centro telefônico local , para que fizesse a ligação. Quando chovia, para se falar da cidade a uma fazenda, só era possível se não houvesse galho caído em cima das linhas...
Veio, a seguir, o telefone automático. Fazia-se a ligação direta, sem a mediação de um centro telefônico. A rapidez com que tudo se processava era espantosa, surpreendente, e parecia que tínhamos chegado ao ápice da telefonia.
Hoje, com os telefones celulares, cada vez mais complexos e ao mesmo tempo leves e simples, não há como não se falar por meio deles, virou até vicio seu uso em qualquer lugar e hora. A dificuldade vem das operadoras, que prometem muito e, na pratica, ficam muito a desejar. Outro dia, meu enfermeiro, plantonista diário às 05:45 subia a rua Lafaiete, vindo da rodoviária, tinha a sua frente duas senhoras, empregadas domesticas, que andavam céleres para seus locais de trabalho. O enfermeiro ouviu uma delas confidenciando à outra:
- tomara que hoje o telefone esteja mudo, que nem ontem. Porque onde eu trabalho, ninguém atende o telefone, “tudo é eu”, isso atrapalha e muito o meu trabalho.
O telefone estava mudo porque a operadora não conseguia captar o sinal.  O que causava dificuldades de trabalho para uns, a mudez do telefone causava facilidade para outra.

Digitou esse texto Ricardo Rodrigues de Oliveira, enfermeiro cuidador do autor.




sexta-feira, 10 de julho de 2015

SILENCIAM-SE OS SINOS (Serie 70, 91°)


Aparece frequentemente nos jornais notícia de que moradores, vizinhos de igrejas, desejam que, aos domingos, os sinos não sejam tocados. Querem ser acordados mais tarde. Por isso, não querem saber de ouvir sinos.
No passado, povoados inteiros dependeram do sino da igreja. Eles anunciavam a hora se de levantar e a hora de se deitar. Chamavam para as missas. Alegres, anunciavam as festas. Tristes, indicavam morte e enterro. Justifica-se, assim, a frase encontrada num romance de Hemingway em “Por Quem os Sinos Dobram”: “esses sinos que agora batem também batem por você”.
Dom Felício, em seu leito de dor na residência episcopal, no começo de 1970, perguntava: “Por que os sinos da catedral não estão tocando?”. Ele gostava de ouvi-los aos domingos (aliás, amanhã 11 de julho, faz 43 anos que ele faleceu).
Os sinos, infelizmente, se silenciam. Aumentam cada vez mais os barulhos dos ônibus, dos carros, dos caminhões, das motos, dos cortadores elétricos de grama, de som de propaganda e durma-se com um barulho desses...

Digitou este artigo: Vinicius Maniezo Garcia enfermeiro e cuidador do autor.